perdido nas montanhas // jogado numa praça, bêbado e cansado
esperando a redenção da manhã // ansioso pelo bom senso da sobriedade tardia
ainda encontrado vivo, grandioso e cansado // chegando em casa melhor, mas ainda navegando por todos os mares internos e infernos que me queimam os pés e tornam tão difícil o passo
as pedras, as estrelas, as pirâmides, os corações, os pássaros, os olhares, o mundo inteiro convergindo nos olhos infindos de Ozymandias // ainda a bagunça da vista nublada, o passo difícil, a caminhada tortuosa até o banheiro, molhando o rosto pra ver se passa um pouco a vontade de morrer, de sair de si, de descansar até esquecer o que se é
todo salvador precisa de alguém para o salvar de si mesmo e do purgatório eterno que é em seu peito // alcança o celular, a vista tremendo, um tanto de sono, digita uma mensagem pra ela, na esperança de se reorientar no mundo
duas pernas de pedra, enormes e sem corpo, acham-se no deserto // fechando os olhos e imaginando alguma estrada infinda que ressoasse o silêncio bonito das coisas que não pensam
ficava em Ozymandias a memória de quantas paixões ali houveram, os fragmentos dos enganos, tudo que o espelho não reflete // mas tudo isso parece irrelevante frente ao horizonte nublado pelo som interminável da dúvida do futuro
sorrindo com a memória de um amor que acendeu seu peito pelo frio do deserto, decidiu, impassível e profundo: é nessa ruína colossal que morrerei, afundando as costas na areia, sentindo o peso do mundo nos ombros. // “por isso não tenha medo se eu te disser que quero segurar sua mão por mais tempo mesmo que eu tenha medo”, eu digito e apago, “eu confio em você o suficiente pra ignorar a voz na minha consciência, mas eu já me machuquei e”, eu desisto de novo, recosto o peso da alma contra o sofá, assisto a vida passar como estrangeiro até que a angústia passe.
e eternamente lembraram Ozymandias, como o rei de um cemitério lembrado pela sua grandeza antiga, pelo seu fantasma que hoje vaga no deserto, insone, em busca das partes do corpo que o gigante de pedra diz, encravado em seus dedos, que costumava ter.
//
mais uma noite dessas passa, e eu me sinto mudado sempre que acordo descansado. o mundo com mais cores, mesmo que a busca seja a mesma. a manhã mais bonita. menos cansaço para tentar mover as montanhas que eu levo nos joelhos. meu sorriso torto marcando as linhas de expressão, exercícios de respiração pra sobreviver a Outubro.
Does anybody whos not out get the irresistible urge to come out to someone for like a few seconds then after you’re like nope nope nopeeeee. Comfortable in the closet. It is warm. Cosy here.